Um comentário em duas partes por Katia Canton
I. DESAPEGAR-SE DAS HISTÓRIAS
"As coisas me ampliaram para menos" (Manoel de Barros)
O rosto da menina de cabelos compridos, repetido inúmeras vezes como um pano de fundo para caixas de imagens construídas com linhas gestuais cravadas no buril, e os fragmentos das paisagens figurativas, composições despretensiosas, emblemáticas da geração da Família Artística Paulista, a que se ligou o pintor Vicente Mecozzi, referem-se, ambos, a um momento preciso e potente na carreira da artista. Durante um período a obra de Silvia Mecozzi incorporou e foi juntando pedaços de sua memória pessoal. Nas caixas-gravuras-poemas, nas construções que ela criava, surgiam imagens de pinturas paternas e fotos da infância relembrando a garota que perdeu o pai com oito anos de idade.
A artista tomou posse de fotos do álbum familiar e misturou as imagens captadas nele, mesclando-as com uma infinidade de matérias e de ações, faturas construídas a partir de ranhuras em placas acrílicas, entintamentos, sulcos, raspagens. Essas ações, carregadas de força e corporeidade, operavam no trabalho como um sistema de apagamento da memória. Pareciam atos que buscavam depurar um passado. Curá-lo.
A apropriação da herança familiar ajudou a artista a localizar-se na criação de um corpo de obra. Placas transparentes de acrílico ganham aspecto translúcido, vão sendo encobertas por intrigantes veladuras. Textos se esboçam sobre as imagens familiares, tornam-se pequenos poemas costurados em torno das figuras e das não-figuras, manipuladas como se fossem ruínas.
Os aspectos da intimidade pessoal ajudam a deixar a história emergir, alagar-se, maturar. E depois, a passar.
Esse processo de abstração foi acontecendo no tempo, no percurso cotidiano de fabricar corpos no espaço. Com suas chapas de acrílico, seus tubos e canos plásticos, suas bolas de resina e de cerâmica, suas goivas e buris, tintas e placas de metal, Silvia Mecozzi foi então tecendo um crochê visual cheio de matérias, protuberâncias, reentrâncias. As decisões passaram a ser tomadas na vontade construtiva, na pulsão que leva à exploração da matéria, sua forma, o contraste de brancos e negros, as texturas, as transparências e opacidades, as ambigüidades.
Nessas ações plenas de fisicalidade, a artista foi se libertando do teor auto-biográfico, da necessidade de reconstruir histórias e de oferecer a elas verdadeiros rituais de ruínas. Silvia Mecozzi foi se desapegando, foi deixando outras formas brotarem e contarem suas próprias histórias.
Nessa ação, a artista diminui-se. Liberta-se do tecido intricado de imagens pré-existentes da memória para abarcar as fibras, texturas e formas inéditas do mundo. Nessa diminuição, ela se ampliou.
II. CORPO, PAISAGEM, TATUAGEM
"Em um momento preciso, o momento justamente em que o corpo dividido grita ego num impulso geral, eu passo para o exterior, posso tirar o resto do corpo, tirar os pedaços que ficaram dentro, sim, os pedaços esparsos subitamente escurecidos pela virada brutal do iceberg... Existe um lugar quase pontual que o corpo inteiro assinala na experiência espacial da passagem... Desde meu quase naufrágio costumo chamar de alma esse lugar. A alma mora no ponto onde o eu se decide" (Michel Serres; Os Cinco Sentidos)
Silvia Mecozzi explica que suas obras surgem de decisões formais. O escuro e o claro, o que está côncavo e o que está convexo, o que é liso e o que quer ser peludo.
Nessa pulsação curiosa e livre que mobiliza suas construções, a artista corta, lixa, risca, verga seus materiais com força masculina. Tudo, no entanto, parece se entregar à criação de corpos que ficam no limiar de paisagens femininas. Há uma espécie de arquétipo erótico delineado nessas formas.
Matérias brutas passam por receitas alquímicas. Tornam-se operações de liberdade.
Olho para as obras e vejo esse limiar. Grandes superfícies peludas pedem o toque. Abóbadas de resina contêm tubinhos pretos que parecem cabelos. Caixas acrílicas estão recheadas de inscrições e ranhuras feitas com buril, tubos plásticos de diferentes espessuras, criando sensações de bichos, pêlos, espinhos, cobras. Bolas de cerâmica impecavelmente redondas alternam tonalidades brancas, pretas e cinzas com pequenas frases ecoando ao seu redor. "Despejo o desejo no azulejo" diz uma delas. São pequenas ilhas de palavras feitas para ver, sentir, pensar.
No corpo da obra de Silvia Mecozzi a carga auto-biográfica deu lugar a uma maneira absolutamente pessoal de construir imagens. Na estratégia mais solta utilizada para construir seu discurso, a artista passou a materializar caixas condensadas de potência sexual. Elas incorporam um erotismo encaixotado, que se dilui, aos poucos, com sua possível alegoria de paisagem - um confundir-se entre a forma pura e os desdobramentos narrativos que, na condição de humanos, tendemos a atribuir a todas as coisas.
À entrada da exposição uma esquina de pelos pretos me recebe. Esses pelos são duros, feitos de plástico. Eles machucam no toque. Confrontados, tocados, esfregados, no entanto, eles vão cedendo ao calor e à textura da mão. Vão amolecendo, tornando-se quase carícias. Novamente a alquimia desse corpo-paisagem-forma pura se faz sentir, universalizando suas potências e fazendo ecoar múltiplos sentidos.
A obra de Silvia Mecozzi se desembaraça dos limites das atribuições no tempo de sua própria existência. E ganha uma imensidão de sentidos que a transforma em forma-coringa.
Uma obra arredondada é uma abstração mas é também uma anêmona. E pode ser um fragmento do corpo feminino, a parte de um mapa da anatomia humana.
Abrindo mão da história pessoal e familiar, a artista nos abre para uma operação de ganhar espaços. Em sua obra o dentro ganha o fora e tudo se expande. É quando o corpo vira paisagem, as anêmonas são corpos de mulher e a virada do iceberg anuncia a existência possível de paisagens híbridas.
Pedaços de corpos se descortinam e viram contêineres de uma memória difusa do mundo, das espécies que nele habitam, do tempo e do espaço em que tudo era um só. As paisagens híbridas de Silvia Mecozzi são grudadas, feito tatuagens, nos múltiplos sentidos que a vida possui. São corpos-paisagens-construções em que tudo pode ser ou se tornar um. E assim a artista vai juntando materiais, texturas, formas. Vai juntando as peças que formam um curioso mundo.
*Katia Canton é PhD em Artes Interdisciplinares pela Universidade de Nova York, livre-docente pela ECA USP. É docente e curadora do MAC USP.
"Tento nomear meus trabalhos muitas vezes.
Procuro palavras que possam conversar com imagens.
Recurso desesperado contra o silêncio que nos invade cada vez que tentamos exprimir a experiência que nos rodeia.
Sobreposições de mim... do outro... do que o mundo causa em mim.
Na caixa-atelier, livros, papéis, tinta, materiais diversos, ferramentas, música, tudo espalhado pelas mesas.
A obra vai brotando nas entrelinhas, criando corpo, se ordenando, se nutrindo pouco a pouco, em cadeia. Um ponto, uma seqüência de pontos, uma linha... pontos de contato.
Um elo que se assemelha ao precedente e ao seguinte.
De círculos em círculos, prosseguem.
Convivo com essas ações silenciosamente.
Vai ficando o substrato.
Li em algum lugar que "a realidade serve para fixar os sonhos".
Quando recomeço a tocar, manusear, ofender a matéria, ela provoca em mim um estado de suspensão, surpresa, curiosidade pelo desconhecido, esse conhecido estranhamento que me põe a pensar, agir, tentar instaurar um outro lugar, fazer surgir uma paisagem para aquietar o doloroso ruído externo do mundo.
Lugar rigoroso, um inóspito refúgio para a alma...
Fundar um quase silêncio marinho em solo deserto...
Vida suspensa...
Mera esfera se ouriça e espera."
Silvia Mecozzi
Junho 2004








